Jornalista alemão resume eleição com uma frase de vendedora ambulante: “Com Lula, tinha carne”

As próximas eleições serão determinadas pelas antigas pragas do Brasil: pobreza, desemprego, fome. Os candidatos que não tiverem respostas sérias a esses problemas nem precisam se dar ao trabalho de se candidatar. diz  matéria do jornalista que se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha,Suíça e Áustria. 

Por Philipp Lichterbeck

Há poucos dias, visitei uma mulher em uma favela de Madureira que trabalha no vasto setor informal do Brasil. O nome dela é Aline Conceição, tem 39 anos e vende café, doces e sanduíches em uma estação de BRT. Trabalha sete horas por dia, de segunda a sábado. No entanto, é pobre. Assim como todos os outros cerca de 35 milhões de brasileiros no setor informal. Eles representam cerca de 40% da população ativa e formam a espinha dorsal da sociedade, que entraria em colapso sem eles.

Antes da pandemia, os informais nunca ganharam o suficiente para ascender socialmente, mas sempre conseguiram sobreviver. Isso mudou. Pessoas como Aline Conceição correm o risco de passar fome e desnutrição.

Isso se deve à crise econômica, à alta inflação e à falta de empregos, bem como à fatal política econômica, social e sanitária do governo Bolsonaro, que mais uma vez esconde toda a sua incompetência por trás de todas as ruidosas tiradas e provocações.

Aline Conceição só já não passa fome porque recebe cestas básicas da organização católica Pastoral da Criança na favela de Campinho. Quando perguntei a ela sobre seu candidato na eleição presidencial do ano que vem, ela respondeu com uma frase só: “Durante o Lula, a gente comia carne!”

Dilema da terceira via

A frase contém todo o dilema dos chamados candidatos da terceira via, sobretudo Sergio Moro. Nas eleições, os temas principais serão pobreza, desemprego e fome. Em contraste com as eleições na Alemanha, por exemplo, questões futuras como mudança climática, proteção ambiental, digitalização e mobilidade não terão grande influência.

O candidato que tiver a melhor resposta para as antigas pragas brasileiras vencerá a eleição. Já parece claro que não será Sergio Moro ou João Doria. É como escreveu a revista satírica Sensacionalista: “Eles têm discutido a união de forças para perder a eleição de 2022.” Embora a grande mídia do Brasil e a elite econômica de São Paulo tenham declarado os dois como seus favoritos, eles quase não têm apelo fora da engravatada classe alta urbana.

Quem quiser vencer eleições no Brasil tem que falar a língua do povo. Ele tem que entender como os brasileiros pensam, sentem, se expressam e o que os move. Imagine Sergio Moro ou João Doria no casebre de Aline Conceição na favela de Campinho, prometendo uma melhora na situação; ou visitando pequenos agricultores do sertão pernambucano ou comerciantes na feira de Manaus. Dificilmente é possível imaginar maiores abismos culturais.

Faz parte do dilema brasileiro que grande parte da classe política e da mídia do país viva completamente desligada da realidade da população. Quase ninguém nela já disse a frase ou mesmo a ouviu na família: “Não tem carne, porque é muito cara.”

Bolhas

Embora tenha havido alguns desdobramentos promissores nas últimas eleições para trazer mais representatividade aos parlamentos brasileiros (a eleição de algumas mulheres negras em particular é animadora), basta olhar para a lista das deputadas mais jovens no Congresso em Brasília para se desesperar. Dos 40 parlamentares com menos de 35 anos, 32 são filhos, filhas, netos, sobrinhos ou sobrinhas de políticos. Parece que os assentos no parlamento são herdados. Com eles, a visão elitista e a falta de conhecimento do que significa trabalho duro e mal remunerado, privação e fome.

Em Brasília e na avenida Faria Lima, formaram-se bolhas nas quais podem florescer ideias malucas como a candidatura de um Sergio Moro. Algumas pessoas podem realmente acreditar que Moro tem alguma chance contra Lula ou Bolsonaro.

A eleição vai ficar entre os dois por um motivo simples. Eles falam a língua do povo e não têm problemas em se mover entre pessoas comuns. Mesmo aqueles que não gostam de Bolsonaro têm que admitir que ele consegue se comunicar com seus apoiadores, embora muitas vezes apelando aos piores instintos: ressentimento, intolerância, agressão, comportamentos antissociais.

Há um núcleo duro, quase sectário, de bolsonaristas no Brasil; segundo as pesquisas são cerca de 20% do eleitorado, que se identificam com esse homem. Infelizmente, nada pode ser feito a respeito até outubro, nem mesmo por Sergio Moro. Eles amam Bolsonaro por seu jeito direto, autêntico e por suas grosserias. E vão alegar que ele está ajudando os pobres com os vários auxílios que foram implementados: auxílio emergencial, Auxílio Brasil, Vale Gás.

Resposta para a fome

Do outro lado está o grande narrador Lula da Silva, que, mesmo aos 76 anos, pouco perdeu de sua energia. Ele continua sendo um grande orador e pode oferecer aos brasileiros a história de sua presidência, que evoca lembranças positivas em muitos brasileiros pobres. Em virtude da sua própria biografia, Lula tem algo que Sergio Moro não pode oferecer: credibilidade e a sensação de conhecer os problemas do cidadão comum.

Dados divulgados recentemente apontam que o Brasil tem 119 milhões de pessoas com alguma privação alimentar. Desses, pelo menos 19 milhões já estão passando fome. Significa que 55% das famílias brasileiras estão em insegurança alimentar.

Nenhum candidato que não tenha uma resposta confiável ao problema precisa concorrer em outubro próximo. Sergio Moro e João Doria nem precisam se dar ao trabalho. “No tempo do Lula tinha carne” é a frase-chave das próximas eleições.

Com informações do BdF/DW

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