Movimentos de direita na América Latina são analisados em dossiê; veja o que eles têm em comum

“Novas roupas, velhos fios: a perigosa ofensiva das direitas” é lançado pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. O dossiê elenca novos e velhos elementos das direitas a partir dos contextos do Brasil, Uruguai, Argentina, Peru e El Salvador

BdF – Jair Bolsonaro na presidência do Brasil, Nayib Bukele em El Salvador, Lacalle Pou no Uruguai; a proeminência de figuras como Keiko Fujimori que quase vence as eleições no Peru e de Javier Milei na Argentina.

Sintomáticas do fortalecimento de movimentos de direita na América Latina, essas figuras, longe de serem exóticas ou excepcionais, têm seus poderes e ideias sustentados em processos complexos e enraizados socialmente.

Ainda que cada região tenha seu contexto e particularidade, entre as bases comuns dos discursos dos movimentos reacionários no continente estão a revitalização de uma matriz conspiratória, a defesa de uma empreendedora liberdade individual e o empoderamento das forças estatais de segurança.

Esses são alguns dos elementos analisados em Novas roupas, velhos fios: a perigosa ofensiva das direitas, o Dossiê 47 lançado na terça-feira (7) pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Para a instituição internacional, vivemos um momento em que “as direitas adotam novas faces que se confundem com as antigas e, ao mesmo tempo, rompem com elas”.

A origem desse fenômeno está, na visão do pesquisador argentino Emiliano Lopez, um dos coordenadores do Instituto, em uma sensação generalizada de descontentamento diante da crise tanto dos projetos neoliberais quanto dos progressistas.

Assim, se dissemina “um novo discurso de ódio como forma de encontrar um culpado para as desventuras oferecidas pelo capitalismo crescentemente excludente e uma democracia burguesa em crise”, argumenta Lopez.

Relatório da ONU aponta que 67 milhões de pessoas na América Latina devem enfrentar a insegurança alimentar até 2030 – FAO / Andrea Galdamez

O novo e o velho

A crise econômica global de 2008 é salientada no dossiê como um momento de virada a partir do qual despontam, desde os Estados Unidos, as chamadas “empresas emergentes” do Vale do Silício que, com suas novas tecnologias, reorganizam as dinâmicas capitalistas e irradiam globalmente perspectivas individualistas, xenófobas, racistas e machistas.

Para Lopez, os suportes a essas ideias, que encontraram terreno fértil nas novas direitas latino-americanas, “foram, por um lado, redes sociais e, por outro, novos impulsos para a mobilização de massas sob eixos que apelavam ao descontentamento”.

Combinando esses elementos novos, os movimentos conservadores na América Latina seguem, na análise do dossiê, articulados com as tradicionais direitas oligárquicas da região.

“A velha direita não tem projeto, mas detém o poder econômico e boa parte do poder político”, avalia Lopez.

“E a nova direita, com discursos de ódio e o uso das novas tecnologias, atualizada aos discursos do século 21, tenta produzir a ideia de uma utopia ultraliberal que interpele pelos desencantados do sistema”, descreve. “Em todos os casos, suas ideias e ações nos conduzem à barbárie”, completa.

O discurso antissistêmico

Críticas contra a classe política, a corrupção dentro do aparelho estatal ou empresas que monopolizam os meios de comunicação são exemplos de pautas que há anos atrás eram facilmente localizadas nas reinvidicações de movimentos de esquerda.

Atualmente são disparadas da boca de pessoas que – como Bolsonaro no Brasil ou Manini Ríos no Uruguai – estão tão atrelados à classe política que criticam quanto distantes da necessidade de que suas falas tenham coerência.

Fato é que, segundo o dossiê do Instituto Tricontinental, as iniciativas da extrema direita no continente latino-americano “tomaram o lugar da denúncia do ‘sistema'”.

Defensores da candidata presidencial de direita no Peru foram às ruas contra “o comunismo”; Keiko Fujimori perdeu as eleições em junho por apenas 44 mil votos / Janine Costa / AFP

“Este é um problema muito importante: a esquerda e o campo popular não parecem estar sendo certeiros em romper as imposições do que Mark Fisher acertadamente chama de ‘realismo capitalista'”, opina Emiliano Lopez, que também integra o Laboratório de Estudos Sociológicos e Económicos do Trabalho (Leset) na Universidade Nacional de La Plata.

“Em certa medida, a correção política no campo da esquerda tem nos conduzido a reduzir o horizonte de sentido ao possível, ao pragmatismo, ao eleitoralismo e ao estatismo extremo como formas de resolver os problemas”, avalia criticamente.

“Assumir isso implica repensarmos e saber que nossos povos precisam de sonhos, emoções, vínculos, alegrias e amor, não só soluções tecnocráticas a problemas urgentes”, propõe Lopez.

Encruzilhada

Analisando especificidades dos cenários políticos recentes do Brasil, Peru, El Salvador, Uruguai e Argentina, o dossiê apresenta a hipótese de que “o grande empresariado na América Latina” se articula em torno da ideia de ser “anti” determinados projetos classificados pejorativamente como populistas.

“Esses casos nos mostram que as classes dominantes de nossa região estão em uma encruzilhada: continuar apoiando um modelo de democracia burguesa hoje em crise ou dar o salto para uma forma autoritária de governo”, descreve o texto.

Para o Instituto Tricontinental, as forças conservadoras da década de 1990 se baseavam em uma utopia do mercado, da eficiência e da modernidade. Agora, diferentemente, a perspectiva seria menos ligada a um futuro iminente do que a uma nostalgia de certo passado imaginário.

Defesas de valores tradicionais, família, exército e religião “vêm preencher de sentido a nova cruzada”.

“Hoje e sempre devemos buscar as soluções a esses debates nos movimentos populares”, defende Emiliano Lopez. Para ele, “são os povos organizados que têm a sabedoria para enfrentar as direitas em todas as suas formas”.

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