Uso de álcool aumenta entre adolescentes no Brasil; pandemia pode agravar a situação

Para especialista, país precisa de políticas para controlar quadro, que pode levar a problemas graves na fase adulta segundo estudo do IBGE que ouviu 11,8 milhões de estudantes

BdF – O percentual de adolescentes entre 13 e 17 anos que consomem álcool no Brasil aumentou entre 2015 e 2019, segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ouviu 11,8 milhões de estudantes. Especialistas alertam que o cenário pode ter piorado ainda mais ao longo da pandemia, embora os dados sejam anteriores à crise sanitária.

Divulgada nesta semana, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) aponta que 63,3% dos estudantes entrevistados haviam tomado uma dose de bebida alcoólica em 2019. Três anos antes, esse índice era de 61,4%.

Laura Cury, assessora de relações internacionais da organização ACT Promoção em Saúde, alerta que a situação pode ter se agravado durante a pandemia do coronavírus. Ela explica que outros estudos já mostram aumento do uso de álcool na população em geral e maior presença de bebidas no ambiente doméstico.

“O consumo do brasileiro, que era predominantemente feito fora de casa, vem mudando de padrão com a pandemia. Para as crianças isso é particularmente importante, porque os comportamentos que são adquiridos na infância e na adolescência tendem a se perpetuar na vida adulta”.

A especialista afirma ainda que as consequências do consumo de álcool são sentidas na qualidade de vida dos jovens, com impactos sociais e econômicas, “A gente precisa olhar com muito cuidado para esses índices e repensar diversas questões para tentar amenizar daqui por diante”.

Ainda de acordo com a PeNSE 2019, 34,6% do total de estudantes consultados havia experimentado bebida alcóolica pela primeira vez antes do 14 anos de idade. O indicador é maior entre as meninas – 36,8%, contra 32,3% entre os meninos – o que não era observado em 2015.

Episódios de embriaguez foram relatados por quase metade dos jovens entrevistados no estudo. Pelo menos 15% tiveram problemas com família ou amigos, perderam aulas ou brigaram, uma ou mais vezes, porque tinham bebido. Novamente as meninas foram maioria: 17,1% das entrevistadas contaram ter vivido situações dessa natureza. Entre os meninos o índice foi de 14%.

Laura Cury avalia que é possível observar relação direta entre o aumento do consumo feminino e as ações publicitárias da indústria de bebidas. “Como o álcool era predominantemente associado ao gênero masculino, este era um mercado ainda a ser explorado, tem quase 50% da população que pode vir a consumir mais. A gente tem um estímulo à utilização do álcool por meio de propagandas que relacionam isso ao empoderamento e à emancipação”, diz a especialista.

Depressão e bullying

A PeNSE 2019 também consultou adolescentes sobre relações familiares, condições da saúde mental, experiências de abuso e outros aspectos sociais.

Ao todo, 23% dos entrevistados relataram ter vivenciado casos de bullying. A situação afetou mais as jovens: o percentual das que afirmaram ter passado por alguma situação de humilhação nos 30 dias anteriores a entrevista foi de 26,5%. Já entre os garotos o índice foi de 19,5%.

O problema se estende para o ambiente online, sendo que 13,2% dos jovens ouvidos responderam que passaram por ameaças, ofensas ou humilhações nas redes sociais. Mais de 1 milhão de estudantes deixaram de ir às aulas porque não sentiam segurança no trajeto da casa para a escola.

O percentual de jovens que relataram ter sentido que a vida não valia a pena alguma vez no mês anterior à realização das entrevistas foi de 21,4%, sendo 29,6% das meninas e 13,0% dos meninos.

Segundo os dados, 14,6% dos jovens já passaram por algum tipo de abuso ou violência sexual. O percentual de meninas nessa situação (20,1%) é mais que o dobro do observado para os meninos (9%).

“O álcool, além de afetar o desenvolvimento neurológico, também acaba incitando esses comportamentos de bullying, de violência, de acidentes, de abuso sexual, atrapalhando inclusive os processos de aprendizagem”, diz Laura Cury.

A especialista defende que, para enfrentar este cenário, é preciso implementar políticas públicas. Na lista estão ações como a regulamentação da publicidade e do incentivo à bebida na internet, o controle de estabelecimentos que comercializam álcool nas proximidades das escolas e a taxação desses produtos, para que tenham preços menos acessíveis.

“A gente consegue contornar essa situação com um ambiente regulatório favorável, o que a gente ainda não observa. Tanto que a gente tem visto nessas várias pesquisas um aumento da prevalência do uso do álcool. Isso aponta a necessidade de políticas públicas eficazes”, conclui a especialista.

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