‘Não é hora de liberar tudo, infelizmente’, alerta professor da Fiocruz

Em entrevista à TVT, pesquisador Paulo Buss afirma que a flexibilização total das medidas de distanciamento, sem considerar o aumento da circulação da variante delta, pode levar a novo descontrole da pandemia

RBA – Em entrevista ao programa Bom Para Todos desta quinta-feira (2), na Rede TVT, o professor emérito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Paulo Buss alertou que a flexibilização total das medidas de distanciamento social, sem considerar o aumento da circulação da variante delta do coronavírus ameaça fazer o país voltar a viver dias difíceis ante a pandemia de covid-19. “Temos o exemplo de Israel. Mesmo com boa taxa de vacinação, ao abrir tudo, os casos subiram. Agora as mortes também voltaram a subir. Em países da Europa a mesma coisa. Eu diria que, no lugar das autoridades, não liberaria estádios, grandes aglomerações. Não é a hora, infelizmente”, disse à jornalista Talita Galli (íntegra abaixo).

Com números ainda elevados de óbitos e novos casos diários – apesar dos crescentes resultados positivos da vacinação –, mas com riscos de novas variantes, Paulo Buss alerta ainda que o cenário pode piorar. “Sei que essa fala é antipática, sobretudo para empresários, que sofrem muito na pele a imposição do distanciamento físico. Mas o risco com essa variante delta circulando e com um nível de mutação que ainda não atingiu a estabilidade, não deveríamos fazer uma flexibilização com essa rapidez. Acho que podemos ter uma surpresa de novo. De termos de fechar novamente, de não podermos ver nossas famílias. Temos que ter muita cautela”, completou.

O professor explica que sem controle da circulação, novas mutações tendem a surgir. “Variantes se originam da replicação em maior quantidade do vírus. Quanto mais o vírus se replica, ou multiplica (…) pode adquirir maior facilidade de se transmitir de pessoa para pessoa. Aumenta a contagiosidade. Eventualmente, a capacidade invasiva dele e a quantidade de multiplicação dentro dos corpos aumentam também a carga viral. Há uma disputa que se estabelece sobre qual variante vai se tornar determinante a partir destes fatores”.

Balanços

Enquanto se renovam os alertas para evitar aglomerações e se manter o uso de máscaras e higienização das mãos, o avanço da vacinação segue produzindo bons resultados, inclusive para frear – ainda que não totalmente – o domínio da variante delta. Segundo o Ministério da Saúde, o 31,58% dos brasileiros dentro do público-alvo da vacinação estão totalmente imunizados, com duas doses ou dose única. Outros 67,85% já recebeu ao menos uma dose.

Também hoje, o Brasil sofreu mais 764 mortes causadas por complicações da covid-19 em um período de 24 horas. Com o acréscimo, o país chega a 581.914 vítimas do novo coronavírus oficialmente registradas. Também foram notificados 26.280 novos casos, totalizando 20.830.495 infectados desde o início da pandemia, em março de 2020. Os dados são fornecidos pelas secretarias estaduais de Saúde e consolidados pelo Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass).


Números desta quinta-feira (2) da covid-19 no Brasil. Fonte: Conass

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) alerta para a interrupção na tendência de queda dos indicadores da covid-19 no Brasil, que se manteve desde o fim de maio. O movimento já era alertado pela entidade há duas semanas. Entretanto, a boa notícia do boletim epidemiológico divulgado hoje, é que a piora no cenário prevista não se confirmou. “Os indícios de possível retomada do crescimento em agosto, apontados na edição da última semana do boletim Infogripe não se confirmaram, mantendo o sinal de estabilidade”, afirmam os responsáveis pelo estudo.

Rio preocupa

No entanto, a variante delta, até 70% mais contagiosa que as cepas já conhecidas, circula com intensidade no Rio de Janeiro. São 12 cidades fluminenses com mais de 90% de ocupação de leitos de UTI e oito, com 100%. “Tal situação manterá o número de hospitalizações e óbitos em patamares altos, caso não haja nova mobilização por parte das autoridades e população locais”, alerta Marcelo Gomes, do Infogripe.

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