‘Nenhuma transformação será viável sem grandes movimentações na rua’, afirma Dilma Rousseff

A ex-presidente falou sobre o golpe de 2016, suas consequências e as perspectivas de reverter o quadro atual para retomar a democracia

O Partisano – Em uma conversa de exatamente uma hora, abordamos a conjuntura atual e a história recente, passando por assuntos da biografia de Dilma Rousseff. Única mulher a chegar ao posto máximo de poder no Brasil, a ex-presidente falou sobre como preconceitos de gênero foram manipulados para criar um clima golpista, sobre política externa e a necessidade das mobilizações populares para mudar os rumos do país.

Dentro dos próximos dias esmiuçaremos aqui essa entrevista em uma série de matérias que tratarão desses temas em detalhe.

O golpe de 2016 é um marco fundamental na trajetória política que levou o Brasil à situação atual, com um presidente de extrema-direita como Jair Bolsonaro, à frente de um governo que deixou a população à deriva diante da pandemia do coronavírus.

Durante a entrevista, a ex-presidente destacou uma conexão frequentemente ignorada entre os dois períodos: o presidente da Câmara dos Deputados que comandou o impeachment de Dilma, Eduardo Cunha, foi “uma espécie de Bolsonaro avant-première”.

E como consequência do golpe hoje temos “a volta de 19 milhões de pessoas à fome”, conforme assinalou Dilma, em alusão aos dados levantados por uma pesquisa divulgada em 2020 pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). Destacando também, entre os motivos dos golpistas, que a “Petrobrás não era esquartejada, a Eletrobras não era vendida, e a Embraer também não”.

Esses desdobramentos, fome e privatizações, são expressões do fato de que, nas palavras da ex-presidente, “o golpe foi para enquadrar o Brasil”, porque “não queriam que o Brasil tivesse uma agenda antineoliberal como ele tinha”.

E como reverter essa situação?

Nessa conjuntura, a esquerda como um todo se pergunta hoje como reverter o quadro sombrio da política nacional. Neste momento, manifestações de massa têm expressado a oposição popular à política do governo. No dia 24 de julho, cerca de 600 mil pessoas em mais de 500 cidades tomaram as ruas pedindo o fim do governo Bolsonaro, a expansão do auxílio emergencial e uma vacinação mais rápida da população. Foi o quarto ato nacional desse tipo desde o dia 29 de maio.

Nesse contexto, O Partisano perguntou à ex-presidente quais caminhos poderiam ser trilhados para efetivamente chegar até ao povo, que mais precisa, e organizar uma luta popular consistente que possa ir além da política eleitoral. Sobre isso, Dilma não parece ter dúvidas:

“Eu acho que no Brasil nenhuma transformação será viável sem ter grandes movimentações de rua. E essa movimentação de rua deve expressar também uma certa organização da sociedade. Não só com a presença da esquerda, mas com a presença dos movimentos sociais, a presença dos interessados”, disse.

Isso porque, sem mobilização nas ruas, e organização na sociedade, não haverá condições de mudar, aponta a ex-presidente, a “correlação de forças no Parlamento e a visão do Judiciário”. Mudando essa correlação de forças, o povo brasileiro pode conseguir:

“Desde um reconhecimento de que o impeachment foi golpe até transformar no Brasil as condições políticas. Para que se tenha de volta um caminho democrático, de inclusão social e de distribuição de renda e riqueza. Para que se possa, por exemplo, estabelecer um imposto progressivo sobre grandes fortunas, grandes heranças, sobre a movimentação financeira dos grandes capitais e sobre a movimentação digital”, afirmou a petista.

O papel do Judiciário no golpe

O papel do Judiciário no golpe também foi tema da entrevista. Na visão de Dilma, a participação das instituições jurídicas se deu principalmente pela omissão, ao não barrarem as ilegalidades cometidas durante o processo de sua derrubada e, posteriormente, na interferência sobre as eleições de 2018 com a retirada do ex-presidente Lula da disputa.

“Recentemente, um ministro do Supremo disse que não havia a menor dúvida de que eu tinha sofrido um golpe. Aliás, vira e mexe, você vê uma manifestação assim de alguém em um cargo institucional. O que eu estou dizendo é que o Judiciário é muito fraco, não porque as pessoas sejam fracas, mas a instituição foi fraca no enfrentamento ao golpe, e no que aconteceu depois do golpe, como no caso daquele tweet do general Villas-Bôas [de 2018, que ameaçou o Supremo Tribunal Federal durante o julgamento de um habeas corpus da defesa do ex-presidente Lula que poderia ter permitido que o petista participasse das eleições daquele ano contra Bolsonaro]”, pontuou Dilma.

A situação de Eduardo Cunha também ilustra o modo com que, por meio da omissão, o Judiciário participou do golpe. Dilma traçou uma linha do tempo demonstrando que, convenientemente, o processo de Cunha esperou o impeachment terminar na Câmara, para só então prosseguir. Feito o impeachment, Cunha virou “óleo queimado”.

“O processo pedindo a prisão do Eduardo Cunha entrou em dezembro de 2015. O golpe ocorreu em 12 de maio, quando na prática eu saí do governo. E o processo do Cunha se conclui em 31 de agosto. Então, veja você o seguinte, é interessante que todo o processo contra o Eduardo Cunha estava prontinho dia 15, 16 de dezembro. Esperaram ocorrer toda a cerimônia do impeachment, para então suspender o senhor Eduardo Cunha, quase seis meses depois”, disse.

Riscos da ação direta

A reportagem também perguntou sobre um elemento novo nas manifestações: a queima da estátua de Borba Gato no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, no mesmo dia das manifestações do dia 24 de julho. Um grupo chamado Revolução Periférica, que até então não tinha aparecido, surgiu nas redes sociais reivindicando a ação. No dia da entrevista, o entregador antifascista Paulo Galo ainda não havia sido preso por causa do ocorrido. Dilma ponderou que há um risco de manipulação por trás de ações como essa.

“Muita gente considera que esse tipo de atitude pode simplesmente levar água para o moinho da direita e da ultradireita. Porque vocês lembram aquela história que existia com os black blocs, que entravam no final para ‘radicalizar’? Necessariamente vão tentar isso com todas as manifestações”, declarou.

Porém, defendeu que, nesse caso, em relação aos autores da ação, “cabe mais diálogo do que qualquer outra coisa”. E que, portanto, não se deveria adotar uma postura “de repulsa a eles, pelo contrário”. Especialmente pelo fato de que Bolsonaro é craque em “reescrever o passado”.

Borba Gato é a nossa vergonha

Sobre o debate que a ação visava provocar, Dilma fez um paralelo com as estátuas derrubadas durante as mobilizações do Black Lives Matter durante o ano passado.

“Nessa questão do Borba Gato eu acho interessante o seguinte: aquele imenso movimento que tomou conta dos EUA contra a morte do Eliot [trata-se de George Floyd] também destruiu monumentos. A mesma coisa aconteceu no Reino Unido. Essa questão dos monumentos tem a ver com uma recuperação histórica. Os monumentos destruídos nos EUA e no Reino Unido eram de mercadores e de traficantes de escravos, ou de pessoas que tinham tido algum posicionamento colonial”.

Comentou tambésobre o que Borba Gato representa na história do Brasil sob a perspectiva das elites, por um lado, e sob a perspectiva oposta, dos que foram oprimidos, por outro.

“No caso específico do Borba Gato, acho que cabe a polêmica sim sobre quem ele é. O Borba Gato é aquele bandeirante que apresava índios quando não conseguia apresar negros fugidos. Esse era o Borba Gato. Ele obviamente tem um mérito para a oligarquia paulista daquela época, e para a história dessa oligarquia. Agora, para a história do Brasil ele não tem nenhum mérito, pelo contrário. Ele é uma parte da nossa vergonha, inclusive dessa vergonha que vem recaindo sobre nós, que tem a ver com a escravidão, tem a ver com o processo colonial desse país, em que a escravização foi a estrutura inicial da chegada do português no Brasil”, disse.

Apontando o modo como a herança escravagista afeta a relação das classes dominantes com o resto da população no Brasil do presente, a ex-presidente traz uma reflexão sobre as consequências da escravidão para o Brasil de hoje.

“Essa discussão causa estranheza porque até hoje isso é algo que não é dito nas escolas. Porque sequer a escravidão é objeto de uma visão aprofundada, quando tinha de ser, porque se você olhar a atual situação do Brasil, há várias correntes que explicam hoje. De um lado, há toda a tendência do fascismo brasileiro, o Integralismo e seus desdobramentos, que vai do General Olímpio Mourão, com o plano Cohen, passando pela UDN e por todo o conservadorismo brasileiro e a ditadura militar. Mas permeando isso, e como suporte disso, há a escravidão. A escravidão explica o nível de violência que a elite sempre usou contra o povo brasileiro. E explica inclusive um certo desprezo, pelo fato de ter havido poucas lideranças que tenham pensado que esse país tinha que ser educado. Só quem olha o povo como uma coisa, sob a coisificação da escravidão, tem esse tipo de atitude”, afirmou Dilma.

Prevendo a perseguição política que o protesto desencadearia, a ex-mandatária considerou também como seria o tratamento para os jovens relacionados ao ato.

“Então, o que eu quero dizer é o seguinte, esses jovens [que queimaram a estátua], vão ter seu ato muito mais lidos por essa ótica oligárquica e escravista, do que por qualquer outra. Eu acho muito mais interessante abrir um diálogo com eles. Porque eles estão dizendo o seguinte: ‘não ao Borba Gato, o Borba Gato representa tudo aquilo que nos oprime, que nos expropriou e que nos escravizou. É nesse sentido que acho que cabe a discussão”, finalizou.

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