Evo: ‘ainda será revelado como o governo Bolsonaro participou do golpe na Bolívia’

Ex-presidente da Bolívia Evo Morales afirma que, dias antes do golpe de 2019 no país, “houve reuniões preparatórias”. “O embaixador brasileiro participou do golpe. Tenho certeza que a qualquer momento será revelado a forma como o Brasil contribuiu”, diz

Por Felipe Yapur e Luciana Bertoia

O ex-presidente da Bolívia Evo Morales fala de presidentes de direita submetidos à política externa dos Estados Unidos que colaboraram com o golpe contra seu governo em novembro de 2019. Um dos citados é o ex-presidente argentino Mauricio Macri, acusado na semana passada de contrabando agravado por envio de, pelo menos, 70 mil balas de borracha para Forças Armadas e Polícia da Bolívia.

Evo define Macri como “um agente do império e das transnacionais”, e avisa que o papel do Brasil no golpe será conhecido em breve. Evo estava em um encontro de cúpula em Sacaba, Cochabamba, cidade em que houve um massacre dois dias após a chegada das munições da Argentina. Antes de voltar ao compromisso, o líder boliviano fez uma pausa para atender a uma ligação do Página/12 (jornal argentino que é parceiro do Brasil de Fato) e discutir as interferências externas do golpe.

Ele dá como certa a participação de agentes de inteligência argentinos que enviaram informações à Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA), exige que Macri seja julgado para que nunca mais aconteçam golpes como o que o tirou do governo e pede a construção de uma América Plurinacional da qual participem, além de governos populares, movimentos sociais.

No passado, as ditaduras trabalharam juntas no que ficou conhecido como Plano Condor. Agora se sabe que dois países democráticos, Argentina e Equador, colaboraram com armas para o golpe. É comparável?

Em algum momento, me perguntei por que há mais golpes de estado na Bolívia e em outros países latino-americanos. A Bolívia possui muitos recursos naturais: metálicos e não metálicos, hidrocarbonetos, especialmente o lítio. Os golpes de estado no mundo ocorrem onde existem recursos naturais ou em alguns locais estratégicos para o comércio internacional, onde estão as bases militares.

Golpes de estado são para saquear nossos recursos naturais. Nos anos 70 e parte dos 80, evidentemente, o golpe foi pelo controle político, porque os movimentos populares, mineiros e camponeses se rebelaram contra as políticas de saque, e aí vem o chamado Plano Condor. Agora, é outro tipo de golpe: golpe judicial, golpe no Congresso – como no Paraguai e no Brasil – ou golpe militar – como em Honduras. Sinto que as políticas dos Estados Unidos estão fracassando.

Como essas políticas fracassaram?

Primeiro, a Guerra Fria contra o comunismo, depois inventaram a guerra contra o terrorismo. Para o império, para o capitalismo, os movimentos sociais são terroristas. E depois os dirigentes sindicais venceram as eleições (Lula, Maduro, Evo). Se a luta contra o terrorismo também fracassou, vem a grande revolta dos povos. Todos sabem que a guerra às drogas é um fracasso.

Apenas um exemplo: a Colômbia tem, pelo menos, nove ou dez bases militares sob o pretexto de combater o terrorismo e o narcotráfico. Na Colômbia, o governo de direita não respeita os acordos de paz. Claro, é melhor que existam rebeldes armados para que isso seja um pretexto geopolítico. Hoje, evidentemente, consideram que é um Plano Condor do século XXI. Existe uma luta na América do Sul.

Para onde essa luta pode levar?

Se a luta dos povos, dos movimentos sociais, não é apenas por uma reivindicação social, mas uma luta por uma mudança estrutural, então vem a refundação dos países. Propusemos uma América plurinacional, dos povos para os povos, quase 200 anos depois da imoral doutrina Monroe (América para os americanos). E o que disseram então os trabalhadores e os partidos de esquerda?

A América Latina não é o quintal dos Estados Unidos. Agora esta geração vai muito mais longe: a América plurinacional, dos povos para os povos. A América plurinacional não é compatível com o capitalismo ou o imperialismo. Esses países mimados pelo Norte têm sérios problemas: Chile, Peru e Colômbia. Isso indica que as políticas do Norte não são viáveis, não resolvem questões de pobreza, igualdade, dignidade. Lá estão eles com golpes de estado e vimos isso na Bolívia.

Na Bolívia, temos o nosso modelo econômico do povo baseado na nacionalização dos recursos naturais e também na recuperação de empresas estratégicas. Mostramos que a Bolívia tem um grande futuro, que estado falido? Era um estado com autoridade de impostores. Isto acabou. Então, certamente, estarão se preparando, mas estou convencido de que os povos continuarão a triunfar como aqui. Em um ano recuperamos a democracia, agora estamos trabalhando para recuperar a economia.

Isso prova que a direita, mesmo que chegue ao governo pelo voto popular, não pode ser necessariamente considerada democrática?

Quando os povos humildes ganham as eleições, o império nos acusa de ditadura. Quando a direita ganha as eleições, nós a respeitamos, mas ela ganha para privatizar. Isso não é democracia. Isso é ir para uma ditadura ao violar direitos coletivos, não apenas direitos individuais. A democracia deve ser para socializar todas as políticas. Quando vencemos as eleições, socializamos a energia, água, telecomunicações, educação.

Para o Estado Plurinacional da Bolívia, os serviços básicos são um direito humano e não um negócio privado. Continuo convencido de que a Mãe Terra, Pachamama ou planeta Terra tem mais direitos do que os seres humanos, porque os seres humanos sem a Mãe Terra não serão capazes de viver. Porém, o planeta Terra pode existir melhor sem o ser humano.

Se queremos garantir a vida, devemos nos comprometer a respeitar os direitos da Mãe Terra e isso não envolve apenas a Bolívia, mas todos os seres humanos que desejam viver nesta terra.

Então, nesse golpe que sofreu seu governo, Macri e Lenín Moreno (então presidente do Equador), que papel eles tiveram?

São agentes do império, agentes das transnacionais com uma mentalidade tão mesquinha que não pensam na pátria nem nas pessoas humildes. A Pátria Grande precisa de patriotas e não de antipatriotas ou traidores. Os povos precisam de revolucionários, não de conservadores, menos ainda de reformistas.

Só a Argentina de Macri e o Equador de Moreno apoiaram o golpe na Bolívia ou houve participação de outros países da região?

Dias antes do golpe, houve reuniões preparatórias. O embaixador brasileiro participou do golpe. Tenho certeza que a qualquer momento será revelado a forma como o Brasil contribuiu. O embaixador da União Europeia também interveio. Não posso acreditar: a Europa participando do golpe. Claro, eles não aceitam que os chamados “índios” possam garantir a libertação do povo.

Eles não aceitam que nosso modelo econômico livre do neoliberalismo teve um desempenho melhor no crescimento econômico e na redução da pobreza. É um golpe com a participação da União Europeia, liderança dos Estados Unidos e os peões (aqui se diz “chitacos”). Tive muitas reuniões com o presidente Macri. Em uma reunião ele me perguntou: “Evo, este ano quanto será o seu crescimento econômico?” E eu disse: “Está programado para mais de 4,5 por cento.” Ele me perguntou o que eu tinha feito para isso. Eu respondi: “Devemos nacionalizar nossos recursos naturais.” Quando eu disse a ele “devemos nacionalizar”, ele não falou mais comigo.

Você disse que o ex-comandante da Força Aérea Boliviana Jorge Terceros Lara pediu balas dias antes do golpe. Você acha que foram essas balas que o governo Macri lhe forneceu?

Não sei, pode ser. O comando militar da época, dez dias antes do golpe, me disse que não poderia defender a democracia. Disseram-me que as balas só dariam uma ou duas horas e nada mais. Mas eu não ia comprar balas, toda a minha vida trabalhei para a vida. E então teria que comprar balas para usar contra o povo? Não, não vou fazer, nunca. Então, quando vi que havia policiais e militares no golpe, achei que o melhor a fazer era renunciar para evitar qualquer morte em meu governo.

Você considera que Macri deve ser julgado na Bolívia pelo envio de munições?

Deixamos nas mãos da justiça boliviana todos os elementos e provas que existem, de atos ilegais e inconstitucionais. Se o processo seguir, deverá ser processado na Bolívia ou em qualquer outro lugar, mas não para defender Evo ou a democracia na Bolívia, mas a democracia na América Latina. Deve ser julgado para que nunca mais haja esse tipo de golpe de Estado: presidentes de governos de direita submetidos ao império dando golpes em um país irmão como a Bolívia. Se nos basearmos nas normas bolivianas, quem permitiu a entrada dessas armas tem 30 anos de prisão. Álvaro García Linera explicou muito bem.

Na Argentina, o Plano Condor foi julgado e soldados uruguaios foram processados. Você pode imaginar um processo semelhante para lidar com o que aconteceu na Bolívia?

O império não dorme, embora esteja em agonia. É por isso que falava de sua guerra às drogas, o terrorismo. Nesta agonia, eles tentarão em todos os lugares, lutar contra os governos populares como estão fazendo agora em Cuba. Eles falam sobre a liberdade de Cuba, mas, para falar sobre isso, primeiro, o bloqueio econômico a Cuba deve ser liberado.

Escutei as palavras do presidente dos Estados Unidos, que pediu que Cuba ouvisse seu povo. Eu digo: por que o presidente dos Estados Unidos não escuta o mundo inteiro que pede que ele levante o bloqueio e ele não escuta o mundo? Que moral pretende para dizer que o povo deve ser ouvido? Existe uma estratégia de como esmagar movimentos sociais e políticos de libertação. Por isso é importante que haja uma conscientização desses povos.

Então não há diferenças entre Donald Trump e Joe Biden?

Embora Trump tenha sido derrotado democraticamente, ele também tentou um golpe de estado em seu país. Nisso Trump concorda com Carlos Mesa e Keiko Fujimori. Quando a direita perde, é fraude e vem o golpe de Estado. Vejam, o capitalismo racista e fascista perdeu, mas o capitalismo classista representado por Biden continua. Nada mudou, nós apenas passamos do racismo ao classismo.

Como você define o papel da CIA no golpe na Bolívia? Houve apoio de outros serviços de inteligência da região?

A CIA contatou a inteligência argentina para o golpe de Estado. A CIA continua operando em nossa região. Os movimentos sociais devem gerar sua própria inteligência para acompanhar o que os Estados Unidos fazem. A DEA (Agência Anti-Drogas) e a CIA vivem em conflito constante. Ambos desempenham um papel de inteligência e o fazem por meio de algumas ONGs e fundações.

É a quinta instância de espionagem, como a USAID. Com isso eles fazem inteligência, o que deve criar uma consciência maior de que é necessário que governos progressistas, movimentos sociais façam uma outra forma de inteligência sobre como a mídia e as redes sociais agem para dominar. Infelizmente, o capitalismo contamina a televisão e o rádio com mentiras, grosserias e até pornografia para depois dizer que é liberdade de expressão. A outra batalha está nos meios de comunicação.

Você considera então que houve uma colaboração da inteligência argentina com os golpistas bolivianos?

Isso está totalmente confirmado. Saúdo alguns irmãos da Argentina que me visitaram nestes dias e me deram muitas informações confiáveis sobre como em governos da direita se usou a inteligência, mas não para o golpe de Estado.

A CIA comprou informações da AFI (Agencia Federal de Inteligência)?

Pediram que investigassem a mim e a vários ministros por corrupção e tráfico de drogas. Há quatro anos e não encontraram nada. O governo de fato usou todo o ano que governou para investigar que atos de corrupção e tráfico de drogas poderiam encontrar contra mim e nada. Os empregados que permaneceram na Casa Grande del Pueblo me chamaram para dizer que (o então Ministro de Governo Arturo) Murillo ordenou que encontrassem algo de Evo com a corrupção, mas não encontraram nada.

A polícia, a força especial de combate ao narcotráfico, me ligou do quartel de Chimoré para dizer que “temos a instrução de vinculá-lo ao narcotráfico”, e não conseguiram. Tantos anos de investigação e não encontraram nada. Você sabe do que tenho medo? Que como estou viajando sozinho, acompanhado de um dirigente da juventude e uma companheira de comunicação, que em algum momento plantem drogas ou dinheiro em mim para que digam: “Ah, ele está envolvido com corrupção”. Eu denuncio porque eles me seguem de forma permanente. E eu quero que saibam, Evo nunca desistirá da posição ideológica anti-imperialista que se deve à herança de 500 anos de luta. A nossa experiência também nos obriga a ser anti-imperialistas.

Você está sendo seguido neste momento?

Sim, tenho informações de alguns amigos.

A quem você atribui esse monitoramento?

Faz parte da luta ideológica de caráter internacional onde está a CIA. Veja, quando eu fui candidato a deputado, um jornalista me disse que a DEA tinha falado a ele que Evo era um bêbado. Pedi a ele para publicar e ele não o fez. O acompanhamento não é recente, mas já há muitos anos.

Há uma década foram criados dois espaços distintos, a Unasul e a CELAC. É necessário reconstruir esses lugares ou seria melhor aspirar a algo novo no quadro desta América plurinacional?

Após a Unasul se consolidar com governos crescentes de tendências socialistas, os Estados Unidos organizam a Aliança do Pacífico para dar continuidade às políticas do Consenso de Washington ou da ALCA. Depois que consolidamos a CELAC, Fidel Castro me ligou, conversamos meia hora ou uma hora e ele me disse: “Evo, é o sonho de tantos anos”. Ele considerava a CELAC como uma nova OEA sem os Estados Unidos.

Assim como a Europa tem a União Europeia, por que a América Latina não tinha uma União Sul-americana ou uma União Latino-americana para não depender dos países industrializados do Norte, Europa, Ásia? A libertação econômica, política, ideológica, programática e cultural já está garantida em alguns países, mas a libertação na ciência e na tecnologia ainda não. Hoje o golpe na Bolívia é o golpe ao lítio porque decidimos industrializar nosso lítio.

Os países industrializados querem que garantamos as matérias-primas e não querem que agreguemos valor aos nossos recursos naturais. Tenho certeza de que no ano que vem a Unasul e a CELAC serão retomadas. Eles formaram o Grupo Lima apenas para enfrentar Maduro e a revolução bolivariana na Venezuela. Agora que em Lima se ganha (com Pedro Castillo), onde ficará o chamado Grupo Lima? Isso mostra que democraticamente há uma rebelião contra as políticas do império.

Com Página 12 /Brasil 247

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