Líder comunitária cobra direito de resposta após ser chamada de ‘ignorante’ por apresentador da Record TV

A ativista quilombola de Salvador,  Eliete Paraguassu, diz que comentário proferido por apresentador do programa Balanço Geral da Bahia foi feito de forma “preconceituosa e discriminatória”. Entidades de mulheres negras emitiram nota de repúdio e agora juntam assinaturas para pedir direito de resposta. O programa é comandando por Zé Eduardo, conhecido como Bocão

Por Alma Preta

A ativista quilombola e líder comunitária da Ilha de Maré, em Salvador, Eliete Paraguassu, divulgou uma nota de repúdio e um abaixo-assinado em que pede direito de resposta após ser chamada de “ignorante” pelo apresentador do programa Balanço Geral da TV Record (Bahia), Zé Eduardo, conhecido como “Bocão”. Um apresentador de televisão com este pseudônimo já é motivo pra ele mesmo ter vergonha desse apelido, com certeza vem de bullying.

A fala do apresentador da emissora foi feita durante a exibição de um protesto realizado por integrantes da associação comunitária da Ilha, Porto dos Cavalos, Martelo e Ponta Grossa. Eles acusam Eliete de ter fraudado as eleições para a liderança comunitária e de ter desviado cestas básicas para moradores da região.

Eliete, que é marisqueira e militante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras e da Articulação Nacional das Pescadoras, desmentiu a acusação e classificou o protesto como um “processo calunioso e difamatório vindo de um grupo da própria comunidade com interesses escusos ou inescrupulosos”. Toda comunidade tem suas diferenças e a imprensa não pode nem deve interferir, ainda mais tomando partido denegrindo uma pessoa independente de sua cor, sexo, religião ou condição educacional.

Segundo a nota de repúdio, assinada por 70 movimentos e organizações, os comentários do apresentador Zé Eduardo, usando sua linguagem “vulgo O Bocão”,  foram feitos “de forma austera, preconceituosa e discriminatória” e que “reforça os ataques se referindo à mesma como ignorante”. Fato gritante como este ou até pior ocorrem nas emissoras televisivas diariamente, coisa que foge do normal, como não tem censura certos programas ditos “policiais” que na verdade fazem humor com a desgraça alheia. Não me vejo fazendo compras em uma loja que alimenta esse tipo de conteúdo.

“Essas afirmações não só violam os direitos individuais de Eliete Paraguassu, mas atacam a imagem de uma mulher íntegra, idônea e uma ativista do movimento social reconhecida internacionalmente por sua atuação nas lutas comunitárias […] A imprensa é também responsável perante a comunidade por averiguar as informações antes da divulgação, pautando-se nos direitos humanos que proíbem qualquer forma de discriminação”, diz um trecho da nota, que também solicita retratação pública do apresentador que este sim deve ser ignorante.

A Alma Preta Jornalismo entrou em contato com a produção do programa Balanço Geral, da Record TV Itapoan, que informou que daria um retorno. Até a publicação deste texto, a reportagem não obteve resposta. Eu pessoalmente fico indignado, peço até desculpas por ser áspero com esse tal “BOCÃO” que deve ser admirado por pessoas no mínimo de sua igual personalidade e caráter.

O Brasil de Fato Entrevistou  Eliete Paraguassú, pescadora, marisqueira quilombola e liderança da Ilha de Maré, Salvador, Bahia. Ela falou como a comunidade tem enfrentado a pandemia, o protagonismo da mulher e o combate ao racismo. Esta entrevista aconteceu em 2020 pela Rede TVT.

Confira a seguir a íntegra da nota de repúdio:

NOTA DE REPÚDIO e SOLIDARIEDADE de Organizações da Sociedade Civil, moradores e lideranças comunitárias de Ilha de Maré em apoio a Eliete Paragassu, Mulher Negra Feminista, Marisqueira, Quilombola e Liderança Comunitária. Integrante da Coletiva MAHIN Organização de Mulheres Negras, Colônia de Pescadores e Pescadoras Z4, Movimento de Pescadores e Pescadoras, Articulação Nacional das Pescadoras, ANQ Articulação Nacional das Comunidades Quilombolas e Coalizão Negra por Direitos.

Nós, abaixo assinado, organizações da Sociedade Civil, moradores e lideranças comunitárias de Ilha de Maré reforçamos nosso apoio a Eliete Paragassu, Mulher Negra Feminista, Marisqueira, Quilombola e Liderança Comunitária. Exigimos direito de resposta no programa Balanço Geral perante os ataques caluniosos e discriminatórios, sendo chamada de ignorante, pelo apresentador do programa Zé Eduardo. Eliete Paragassu é liderança reconhecida dentro do movimento social por sua seriedade na luta pelos direitos humanos de homens, mulheres crianças e idosos, sobretudo pelos direitos da população de Ilha de Maré.

As organizações se somam aos diversos setores da sociedade que repudiam veementemente o ataque realizado contra Eliete Paraguassu e manifestam apoio à líder comunitária.

Nesta quarta-feira (07/07), acompanhamos com perplexidade a matéria que exibia a manifestação de alguns moradores da comunidade de Ilha de Maré, proferindo ataques mentirosos, levianos e graves contra Eliete Paraguassu, acusada de falsificar documentos e desviar cestas básicas. De forma austera, preconceituosa e discriminatória, o apresentador do programa, Zé Eduardo, reforça os ataques se referindo à mesma como ignorante.

Essas afirmações não só violam os direitos individuais de Eliete Paraguassu, mas atacam a imagem de uma mulher íntegra, idônea e uma ativista do movimento social reconhecida internacionalmente por sua atuação nas lutas comunitárias.

Reforçamos que a liberdade de imprensa não pode ser conivente com ações que que recorrem sistematicamente a estereótipos discriminatórios de gênero para atacar mulheres, que são lideranças comunitárias comprometidas com as lutas por políticas públicas e transformações sociais essenciais para o país, especialmente neste momento crítico da nossa história. A imprensa é também responsável perante a comunidade por averiguar as informações antes da divulgação, pautando-se nos direitos humanos que proíbem qualquer forma de discriminação.

Nesse sentido, além de chamar atenção para a gravidade do episódio, manifestamos todo nosso apoio e solidariedade a Eliete Paragassu, Mulher Negra e Liderança Comunitária reconhecida. Exigimos, portanto, a imediata apuração do ocorrido, direito de resposta, bem como retratação pública.

ASSINAM ESTA NOTA DE REPÚDIO E SOLIDARIEDADE:

Coletiva Mahin Organização de Mulheres Negras

Colônia de Pescadores e Pescadoras Z4

Movimento de Pescadores e Pescadoras

Articulação Nacional das Pescadoras

ANQ Articulação Nacional das Comunidades Quilombolas

Coalizão Negra por Direitos

CPP-BA

Instituto Búzios

Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher

Agrupación Noviembre Negro en Argentina

Associação de Moradores do Nordeste de Amaralina

Uneafro Brasil

Afro-Gabinete de Articulação Institucional e Jurídica – AGANJU

Grupo de Pesquisa COLAPSO (UFBA)

Rede Jubileu Sul

Núcleo de Evangelicos do PT da Bahia

Ceará no Clima

Rede de Mulheres de Comunidades Extrativistas Pesqueiras da Bahia

Juventude AFRONTE!

350.org Brasil

Afronte – movimento nacional de juventude

FASE/ES

ÌROHÌN Centro de Documentação, Comunicação e Memoria Afro

PSOL ITACARE

Subverta/PSOL

ANP Piaui

COLETIVO MULHER POR MULHER

Coletivo Alafia de Mulheres Empreeendedoras e de Axé

Mulheres Unidas Contra Bolsonaro – MUCB

Mandato da Resistência Deputado Hilton Coelho PSOL

CAMA

Coletivo Maré Negra do PSOL

Marcha do Empoderamento Crespo

Fórum Social de Manguinhos (RJ)

Articulação da juventude-MPP

Rede de Mulheres Negras da Bahia

CFEMEA

Movimento Atitude Quilombola

MNU – Movimento Negro Unificado

Coletivo de Mulheres do Calafate

EIG-Evangélicas Pela Igualdade de Gênero

Instituto Soma Brasil

Marcha das Mulheres Negras de São Paulo

Articulação de Mulheres Brasileiras

Articulação de Mulheres Negras e Quilombolas do Tocantins

APESCA-Associaçāo de pescadores Artesanais

Articulação de Mulheres do Amazonas – AMA

Comissão Pastoral da Terra / Bahia

AMB/Núcleo Lauro de Freitas -Bahia

CPT – Ruy Barbosa

GTFEM

Fórum Marielles

Libertas Bahia

Abayomi Coletiva de Mulheres Negras

SOCIEDADE DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS – SDDH

SPD Associação Protetora dos Desvalidos

Mandato Vereador Jhonatas Monteiro – PSOL Feira de Santana

Coletiva de Mulheres Abayomi

AMB NÚCLEO DE LAURO DE FREITAS

Instituto Afroamerica

Coletivo de Mulheres do Calafate

Ile Axe Aja Omi Oba Ire Omo Oxe Oba

Bando de Teatro Olodum e Culinária Musical

Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE

Movimento Cultural de Águas Claras

Grupo de pesquisa Geografar

NEEPES/ENSP

Grupo de pesquisa Costeiros – UFBA

Federação Nacional das Associações Quilombolas FENAQMS

FOPAAM – Fórum Permanente de Afrodescendentes do Amazonas

Com informações da Revista Fórum

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