A queda do cercadinho e a coragem da verdade

Quem no Brasil que acompanha pelo menos um pouco dos noticiários não conhece o “cercadinho” do Bolsonaro, aquele lugarzinho fútil que mais parece coisa combinada ou paga, que e me nome de Jesus saem da boca de tolos, as mais venenosas aberrações que o Brasil com seus quase meio milhão de mortos são obrigados a conviver com o vergonhoso cercado do gado.

Por Pedro Veroni

Quando olharmos, no futuro, para esses tempos absurdos da história brasileira, o Greg News de Gregório Duvivier há de ter seu lugar como crônica do país entre 2020 e 2021. O programa, transmitido pela HBO e disponível no YouTube, se vale de informações contextualizadas, temperadas pelo talento e humor do protagonista. Simula a performance de um telejornal e inova na forma de alinhavar os assuntos em torno de um eixo temático, demonstrando um equilíbrio entre informação, humor e crítica social. No episódio mais recente, “Cercadinho”, Duvivier toca no centro de uma questão relacionada à CPI da Covid e ao jornalismo. O cercadinho, espaço na porta do Alvorada, destinado à imprensa, exposta ao sol e à chuva, simboliza a forma como o jornalismo profissional é tratado pelo governo. A CPI tem possibilitado a circulação de perguntas incômodas a quem de direito, ausentes em um governo que despreza o jornalismo e que usa suas redes para disseminar desinformação.

Numa espécie de continuum pandêmico midiático, a CPI tomou o lugar do BBB como centro das atenções e olhares de grande parte da população. E ali começa a se constituir um novo imaginário, que surge como a “esperança de ter esperança”, conforme as palavras de Duvivier. Algo que se relaciona com o desmonte da máquina de mentiras do governo Bolsonaro. Não por acaso, Renan Calheiros sugere acolher uma ideia que recebeu nas suas redes sociais: contratar uma agência de fact checking para separar o joio do trigo. A ideia dialoga com uma tentativa de reconstrução das instituições, abaladas pelo intenso desmonte em jogo, e passa pela relação entre verdade factual e narrativa. A experiência da ágora grega tinha como pressuposto a diferenciação entre fato e rumor. Os rumores não deviam entrar no debate.

O que estamos vivenciando não deixa de ser um ensaio da qualificação do debate público, um movimento de reconstrução de uma guerra que, infelizmente, não dá sinais de arrefecer. A artilharia pesada dos cercadinhos virtuais disseminadores de desinformação continua ativa. Não por acaso, uma das palavras mais usadas pelos senadores na CPI é “objetividade”. Há uma cobrança nas perguntas e respostas objetivas, pelo relativo consenso de que respostas pontuais são uma forma de expor as contradições e mentiras na condução das políticas sanitárias pelo governo. A busca da objetividade tem a ver com um dos fundamentos do jornalismo, a informação verificada. Em tempos de pós-verdade, reconhecer essa necessidade é uma conquista social. Mas há uma outra dimensão semântica em torno da ideia de objetividade que se torna mais complexa, tanto no campo político quanto nos seus efeitos no jornalismo: o Congresso tenta recompor sua credibilidade numa relação com a verdade factual. Os acontecimentos demandam uma busca arqueológica dos últimos anos da política brasileira. Retroceder no próprio percurso até o ponto em que a obscuridade se tornou regra. O espelho/reverso é o impeachment de Dilma Rousseff, e as cenas de hipocrisia, do falso moralismo, da retórica do “boi, bala e bíblia”. É interessante comparar os dois momentos e observar como o jogo da política é dinâmico.

No campo jornalístico, a objetividade também pode ser pensada como um relato transparente dos fatos. Trata-se da ideia de que seria possível uma descrição objetiva do real, isenta e técnica. Esse valor que ajudou a erigir o jornalismo em tempos de mídias de massa parece insustentável na contemporaneidade -e reconhecer isso faria muito bem aos desafios do jornalismo. Nessa busca arqueológica dos últimos movimentos políticos do país, as manifestações de 2013, a despeito do muito que se disse ou escreveu sobre elas, são um ponto de corte incontornável. A crise de representação em relação à política institucional também emitia sinais claros para o exercício do jornalismo.

Um debate elucidativo sobre esse momento está disponível numa gravação do programa Roda Viva de agosto de 2013, em que os integrantes do Mídia Ninja, Pablo Capilé e Bruno Torturra estão no centro do palco. O tema era a crise de representação do jornalismo tradicional, que tomado de surpresa pela eclosão das manifestações, perdeu a pauta para as redes sociais. Grandes nomes do jornalismo corporativo pareciam assustados com o novo mundo. É de se notar a participação de Alberto Dines nesse debate, principalmente porque ele deu sinais de entender, mais do que outros, a transformação em curso. Capilé e Torturra defendem a ideia de multi-parcialidade, reforçando o pressuposto de que não há jornalismo imparcial, mas é preciso que, em nome da pluralidade, diferentes pontos de vista sejam contemplados. Formas mais horizontais e participativas de jornalismo em tempos de conteúdos multiplataforma e conexões em rede.

O que se viu depois de 2013 é conhecido de todos. O crescimento da pauta conservadora, as manifestações de 2015/2016, a adesão da grande mídia à cobertura seletiva da lava-jato, o crescimento do anti-petismo, a crise que destituiu Dilma Rousseff, a normalização do candidato Bolsonaro a partir das promessas do liberalismo econômico de Paulo Guedes, a pandemia, a multiplicação das mortes, o descaso, a necropolítica. É certo que o jornalismo brasileiro foi oxigenado por iniciativas digitais com novos modelos de negócio e de formas de expressão. A vaza jato divulgada pelo The Intercept Brasil é um exemplo marcante desse processo, assim como outros fatos que repercutiram no ciclo do poder, como a paráfrase nazista do secretário de cultura, Roberto Alvim, divulgada pelo coletivo Jornalistas Livres. É certo também que o jornalismo mainstream se tornou um importante agente de valorização da informação e da ciência. O consórcio para levantar os dados da Covid é um exemplo importante.

Um dos textos mais tocantes de Michel Foucault é o curso “A Coragem da Verdade”, o último ministrado pelo filósofo no Collège de France, poucos meses antes de sua morte. Nessas aulas, ele percorre o mundo grego para pensar a noção de “parresía” — o dizer verdadeiro. Foucault propunha pensar a maneira como o sujeito dizendo a verdade representa a si mesmo e é reconhecido como portador do discurso verdadeiro. Essa é a base da reconstrução em curso. É bom que ela se manifeste na CPI da Covid, expondo o jogo das mentiras que têm definido a vida política e social do país. O jornalismo, como a política, é dinâmico, os critérios editoriais se transformam na relação com os acontecimentos. Buscar um debate mais plural nos temas sociais, econômicos, ambientais e maior transparência na relação com os valores editoriais é um processo incontornável à credibilidade do jornalismo brasileiro. Também nesse sentido a CPI da Covid tem contribuído para derrubar os cercadinhos.

Via Observatório da Imprensa

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