Ernesto Araújo blinda Bolsonaro e mente sobre relação com a China

Numa fala fantasiosa, o ex-ministro das Relações Exteriores negou confronto com a China e alinhamento com EUA. “Jamais promovi atrito com a China. Não foi uma política de alinhamento com os EUA”, disse

Por Iram Alfaia

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo mentiu aos senadores durante seu depoimento nesta terça-feira (18), na CPI da Covid, ao negar ataque à China dificultando negociações para importação de insumos daquele país asiático para produção de vacina. Ele ainda blindou Bolsonaro e responsabilizou o Ministério da Saúde, na gestão de Eduardo Pazuello, pela decisão de aderir à quantidade mínima de doses no consórcio Covax Facility.

“Quando o Brasil aderiu ao Covax Facility, 170 países já haviam aderido. Além disso, o país optou apenas por 10% ao invés dos 50% oferecidos. Mais uma confissão de falha direta do Governo na aquisição de vacinas”, disse o vice-presidente do colegiado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

O relator Renan Calheiros (MDB-AL) questionou o ex-ministro sobre o porquê de o Brasil aderir fora do tempo e ainda com uma quantia mínima do consórcio global de vacinas. Até 20 de abril do ano passado, o país poderia pedir a reserva de até 50%, mas optou por apenas 10%. “Essa decisão não foi minha, não foi do Ministério das Relações Exteriores, foi uma decisão do Ministério da Saúde, dentro da sua estratégia de vacinação”, disse.
Ele disse desconhecer o fundamento técnico da decisão tomada.

O clima esquentou quando a senadora Kátia Abreu (PP-TO) o chamou de “negacionista compulsivo, omisso, uma bússola que levou o país para o naufrágio”. “Eu vejo senhor Ernesto que sou psicóloga de formação, mas sou uma mulher do campo. Eu imagino que o senhor tenha uma memória seletiva, para não dizer uma memória leviana”, disse a parlamentar. A senadora pediu quebra de sigilo de correspondências dos ministérios com governo federal. “Vamos identificar qual foi o ministro que pior influenciou Bolsonaro”, disse

China

Durante o depoimento, o ex-ministro das Relações Exteriores negou confronto com a China e alinhamento com EUA. “Jamais promovi atrito com a China. Não foi uma política de alinhamento com os EUA”, disse.

Diante da fala fantasiosa, o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD), advertiu o ex-ministro: “Quero alertá-lo que o senhor está sob juramento de falar a verdade (…) E Vossa Excelência deu várias declarações anti-China. Inclusive, se indispôs, por várias vezes, com o embaixador chinês. O senhor escreveu um artigo no Diário do Poder. E nesse artigo que Vossa Excelência chama de “comunavírus”, e há pouco o senhor disse para o relator que não teve nenhum, nenhuma declaração, tem várias declarações.”

Em abril do ano passado, o ex-ministro escreveu um artigo que alertava para o chamado “projeto globalista” que poderia “despertar novamente para o pesadelo comunista”. O chanceler sustentou ainda que o “comunavírus”, que ele chama de “vírus ideológico”, era mais perigoso que a Covid-19. Na ocasião, já havia 180 mil vítimas em todo o planeta.

Ele também disse que nunca teve atrito com o embaixador da China, o que também não é verdade.Araújo se envolveu em atrito com a embaixada chinesa após o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, insinuar em seu Twitter que a China era responsável pela pandemia. Na ocasião, o ex-ministro criticou o embaixador Yang Wanming por achar que era “inaceitável que o embaixador da China endosse ou compartilhe postagem ofensiva ao Chefe de Estado do Brasil”.

“Se permite, eu nunca tive discussões com o embaixador da China. Eu fiz duas notas do Itamaraty: uma em março e uma em novembro, notas oficiais do Itamaraty, justamente apontando comportamento inadequado dentro da Convenção de Viena sobre relações diplomáticas por parte do embaixador da China, em março, depois em novembro. Isso não é um bate-boca”, justificou o ex-ministro.

Bolsonaro

Questionado pelo relator Renildo Calheiros (MDB-AL) sobre quais orientações teria recebido de Bolsonaro sobre a aquisição de vacina, Araújo respondeu. “Senador, não recebi diretamente, como eu digo, instruções do presidente de maneira geral sobre a implementação dessa política. O fato de não ter havido um documento, uma orientação geral, uma política com esse nome formalmente definida não quer dizer que tenha havido improviso. No caso da vacinação, por exemplo, houve uma estratégia definida basicamente pelo Ministério da Saúde, que foi apoiada pelo Itamaraty onde necessário”, disse.

Cloroquina

Apesar de ter comemorado, no dia 1º de julho de 2020, a entrega ao Brasil pelos Estados Unidos de 2 milhões de doses de cloroquina, que seriam usadas como “profilático para ajudar a defender enfermeiros, médicos e profissionais de saúde do Brasil contra o vírus”, o ex-ministro afirmou que o recebimento da doação foi comunicado ao Ministério da Saúde e não se verificou nenhuma razão para rejeitar essa doação. Na ocasião, segundo ele, não havia ainda sido solucionada a problemática da falta ou da escassez de hidroxicloroquina no sistema de saúde brasileiro.

“A OMS já tinha emitido nota sobre essa questão da cloroquina em julho e em junho o Ministério das Relações Exteriores ainda estava atrás de insumos de cloroquina, depois que a OMS já tinha se manifestado”, lembrou Omar Aziz.

Via Vermelho

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