Conflito Israel e palestinos: silêncio do Itamaraty ‘não é normal’, diz especialista

Para especialista, ministro das Relações Exteriores, Carlos França, busca ‘filtrar’ radicalismo de Bolsonaro, ele  que por uma rede social disse ser absolutamente injustificável o lançamento indiscriminado de foguetes contra o território israelense. A escalada de violência entre Israelenses e palestinos já entrou na sua segunda semana, cerca de 200 mortos em Gaza e 10 em Israel, só por aqui já podemos perceber a desproporção de forças absolutamente injustificáveis.

Com BBC Brasil

Mas até agora, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty) ainda não se manifestou sobre o assunto, que foi tema de reuniões emergenciais do Conselho de Segurança da ONU.

O presidente Jair Bolsonaro se pronunciou na semana passada no Twitter: “É absolutamente injustificável o lançamento indiscriminado de foguetes contra o território israelense. A ofensiva provocada por militantes que controlam a Faixa de Gaza e a reação israelense já deixaram mortos e feridos de ambos os lados.”

“Expresso minhas minhas condolências às famílias das vítimas e conclamo pelo fim imediato de todos os ataques contra Israel, manifestando meu apoio aos esforços em andamento para reduzir a tensão em Gaza.”

O Itamaraty costuma lançar comunicados sobre diversos eventos internacionais. No último mês, o ministério das Relações Exteriores emitiu notas sobre acontecimentos como o conflito em Myanmar, um acidente durante uma celebração religiosa na Galileia, em Israel, e o falecimento do presidente do Chade.

Israel é um dos países com maior presença nos comunicados do Itamaraty desde que Bolsonaro chegou ao poder, em 2019.

Durante sua presidência, o Itamaraty já emitiu dez notas oficiais sobre Israel sobre assuntos variados: declarações sobre visitas oficiais de Bolsonaro e de diplomatas ao país, comentários sobre acordos de normalização de relações entre Israel e alguns países árabes e sobre o plano do ex-presidente Donald Trump de pacificar a região.

Em 2019, o Itamaraty emitiu duas notas oficiais — uma em março e outra em junho — ambas condenando o lançamento de foguetes contra Israel.

“O governo brasileiro condena, nos termos mais veementes, o lançamento de mísseis desde a Faixa de Gaza contra a região central de Israel, onde se localiza a cidade de Tel Aviv. Nada pode justificar o disparo indiscriminado de foguetes contra centros urbanos, em ataques que têm como alvo a população civil”, dizia a nota de março de 2019.

A reportagem  entrou em contato com o Itamaraty perguntando se haveria uma nota oficial do órgão sobre o atual conflito entre Israel e palestinos, mas não recebeu retorno.

Silêncio diplomático

Para o especialista em relações internacionais e professor da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, Guilherme Casarões, o silêncio do Itamaraty é incomum diante de um conflito como esse.

“Isso não é comum para a diplomacia brasileira, que tem uma tradição de se manifestar de forma assertiva sobre o tema”, disse Casarões à reportageml.

No passado, manifestações mais veementes do Brasil já provocaram reações de Israel.

Em 2014, em meio a uma escalada de violência entre Israel e a Faixa de Gaza, o Itamaraty emitiu uma nota criticando “o uso desproporcional de força por parte de Israel”. Na ocasião, um porta-voz da chancelaria de Israel chamou o Brasil de “anão diplomático” e o episódio. Na ocasião, o então presidente israelense Reuven Rivlin telefonou para a então presidente Dilma Rousseff e pediu desculpas.

Casarões afirma que o episódio revela um pouco do que deve ser a linha do novo ministro das Relações Exteriores, Carlos França, que assumiu o posto em março — que deve ser mais conciliadora e menos radical que a de seu antecessor, Ernesto Araújo.

“Bolsonaro e Araújo estavam na mesma página”, diz o cientista político. O presidente e o ex-ministro concordavam com um maior alinhamento do Brasil com Israel — uma mudança em relação à posição tradicional do país, que sempre foi de maior equilíbrio.

Isso explica o posicionamento crítico ao Hamas nas notas brasileiras na gestão de Araújo, mas sem nenhuma crítica a operações militares israelenses.

Esse novo alinhamento a Israel atente a um discurso de campanha de Bolsonaro, que chegou a prometer a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém — algo que poucos países no mundo fazem, pois poderia resultar em boicotes comerciais de nações árabes.

“A proposta do Carlos França é de fazer uma diplomacia de perfil baixo. Ela não é contrária ao Bolsonaro. França tem atuado para minimizar o efeito das posições radicais do Bolsonaro na política externa brasileira”, diz Casarões.

“Essas declarações de Twitter do Bolsonaro tem como objetivo de sinalizar para a base. O trabalho do Carlos França, entre outras coisas, é filtrar o que é dito para a base daquilo que serão posições consolidadas do governo brasileiro dignas, por exemplo, de notas oficiais do Itamaraty.”

Apesar das seguidas demonstrações de maior apoio de Bolsonaro a Israel, Casarões afirma que a política externa brasileira segue em grande parte o mesmo pragmatismo que já é tradicional do Itamaraty.

“O Itamaraty não é alinhado em absoluto ao bolsonarismo. É um órgão do governo, mas não é um órgão que replica irrefletidamente as posições do governo em relação a alguns temas.”

“O governo precisa zelar também pelas suas relações comerciais, que são pragmáticas. Quando uma delegação do Bolsonaro voltou de Israel [em 2019], a primeira atitude do governo foi fazer um jantar com 40 representantes dos países muçulmanos em Brasília. A ministra [da Agricultura] Tereza Cristina organizou esse jantar para sinalizar aos parceiros econômicos brasileiros.”

Com El País

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